Um médico humano…

Nos dias 04, 05 e 06 de Agosto médicos, acadêmicos do curso de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo-UNESC, da Universidade Vila Velha-UVV, da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG e da Universidade Presidente Antônio Carlos-UNIPAC, Campus Juiz de Fora estiveram reunidos no Auditório do UNESC, Campus Colatina, para juntos chegarem à resposta acerca de qual médico a sociedade precisa.

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O IV Seminário de Humanidades Médicas cuja a temática remete à pergunta: De que Médico a sociedade precisa?, contou com várias atividades. Na quinta-feira, 04 de Agosto de 2016 foi realizada uma Oficina de Formação Política, a qual incluiu o estudo da Filosofia, da Política e da Saúde. O objetivo do curso não era ministrar Ciências Políticas, mas sim, de estratégias e ferramentas políticas aplicadas ao contexto da saúde brasileira, incluindo análises e estudos dirigidos. Além disso a oficina promoveu a busca pela Alta Cultura entre os participantes, conhecimento dos principais temas e materiais em Política, aprimoramento intelectual e moral, treinamento de capacidades argumentativas, deliberativas e meditativas, além de guiar os participantes ao pensamento sobre o papel do médico e do profissional da saúde na sociedade.

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Na sexta-feira, 05 de Agosto de 2016 foi realizado um Simpósio-Satélite dentro do Seminário com a temática: Educação Médica na visão do Estudante. Na abertura os participantes acompanharam um vídeo acerca de aplicativos e seu uso no ensino médico. Em seguida, acompanharam virtualmente a realidade de estudantes da UFAM-Universidade Federal do Amazonas, UFVJM-Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri e FMP- Faculdade de Medicina de Petropólis, com relação aos métodos de ensino, dificuldades e benefícios que encontram em suas instituições.

No decorrer do simpósio os temas foram os mais diversos, o primeiro workshop remeteu aos métodos de estudos aplicados à Medicina. Esse tema foi ministrado pelo acadêmico Rafael Ageu, o qual é coordenador de um grupo (GEDAAM-Grupo de Estudos em Didática Aplicada ao Aprendizado em Medicina) na Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG; durante o workshop descreveu a transição entre o ensino médio e o ensino superior e as dificuldades que o estudante enfrenta com essa mudança (tempo, quantidade de matéria, memória, procrastinação e concentração). Diante disso expôs sugestões de como lidar com esses problemas: ter um sono adequado, postura adequada ao estudar e praticar exercícios físicos. Além disso sugeriu métodos de estudo(“ Pomodoro”, Mapas mentais) e aplicativos que otimizam o nosso estudo. Em seguida, a criadora da página “Arte Anatômica” e acadêmica da UNIPAC-Juiz de Fora, Amanda Borges, ministrou um workshop acerca do uso da arte aplicado à anatomia. Dentro de sua apresentçaõ compartilhou acerca da motivação dos desenhos como necessidade de aprendixagem diante da dificuldade no aprendizado apenas com textos, sugerindo que a anatomia é imprescindivelmebte visual. E dentro de seu acervo, partilhou as motivações de suas obras de arte ( seja uma patologia que cursa com modificações anatômicas, seja defender ideais ou até mesmo solidarizar com a dor do próximo). A última apresentação foi uma palestra da acadêmica, Letícia Dalvi, a qual tem experiência na área de Humanidades, por ter participado do Seminário de Filosofia Aplicado à Medicina-SEFAM durante dois anos. Ela discorreu acerca da necessidade do domínio das humanidades para que um médico seja considerado completo. Humanidades não se resumem à Filosofia! Ela engloba um campo vasto, que permeia a literatura, sociologia, artes visuais e história e nos leva à resgatar valores que pela tradição, as pessoas esperam de nós, enquanto médicos e profissionais da saúde.

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Para a primeira conferência do IV Seminário de Humanidades Médicas, ainda no período da manhã de sexta, tivemos a honra de receber o doutor em Farmacologia, José Guilherme Pinheiro Pires, o qual discorreu acerca dos aspectos éticos da prescrição médica. Sua apresentação iniciou com um tripé na qual a terapêutica medicamentosa é sustentada: fisiopatologia, medicina clínica e farmacologia. Se um desses pilares falta, não há uma terapêutica eficaz. Dois pontos que merecem destaque na conferência ministrada são: quem prescreve? “A prescrição medicamentosa é uma ordem escrita dirigida ao farmacêutico, definindo como o fármaco deve ser fornecido ao paciente, e a este, determinando as condições em que o fármaco deve ser utilizado”. É documento legal pelo qual se responsabilizam quem prescreve (médico) e quem dispensa a medicação (farmacêutico), estando sujeito a legislações de controle e vigilância sanitários.( Wannmacher & Ferreira, 1998). Na contemporaneidade, os conselhos que regulamentam outras profissões querem tornar um ato que é médico, comum à outras profissões. E quando o paciente vem com um diagnóstico e terapêutica prontos, o que fazer? É necessário destacar que prescrever um medicamento, implica em assumir um risco calculado, o qual, o paciente nesse caso, e outros profissionais da saúde não possuem gabarito para assumir diante dos efeitos advindos do mesmo.

No período da tarde, a abertura oficial nos levou à um passeio na história da Medicina, pelo Brasil e pelo mundo, com depoimentos de médicos, estudantes e pacientes os quais opinaram acerca de qual Médico precisamos hoje?
Em seguida, compondo a mesa de abertura, o Dr. Hélio Angotti Neto, coordenador do Curso de Medicina do UNESC, junto com Dr. Edgar Gatti, Diretor e Delegado do SIMES-Sindicato dos Médicos do Espírito Santo e Dr. Lúcio Flávio Gonzaga Silva, compuseram a mesa de honra do evento, proferindo algumas palavras para os participantes.

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Dando continuidade ao evento, a primeira conferência da tarde foi ministrada pelo Dr. Marco Antônio Cortelazzo, Doutor (2007) e Mestre (2003) na área de Oncologia pela Faculdade de Medicina da USP(FMUSP),com trabalhos desenvolvidos no ACCamargo-SP, sob a orientação do Dr. Luiz Paulo Kowalsky. Especialista em Cirurgia Oncológica (RQE. 23.841) e em Mastologia (RQE 12.550) e Curso de Especialização em Bioética pela FMUSP (2008-2009). O tema exposto foi Princípios de Bioética na relação médico-paciente. O que o paciente busca ao entrar em seu consultório? A primeira resposta tende a ser: a “cura de sua doença.” E esta é a essência e o principal objetivo da busca pelo tratamento oferecido por um médico. Mas não é a única expectativa que o paciente carrega para o consultório. O desejo por um bom atendimento, atencioso, dedicado, confiável e seguro compõe grande parte da bagagem que o paciente leva ao consultório . E, nesse contexto, a relação com o médico se encaixa com perfeição.
“O método natural de ensino começa com o paciente, continua com o paciente e termina com o paciente, usando livros e aulas como ferramentas para este fim.Nunca se esqueçam de que seu paciente não é uma pneumonia, mas um homem pneumônico”, ou ainda “O bom médico trata as doenças, mas o grande médico trata o paciente” (OSLER,1989)
Bioética é a ponte entre a ciência e as humanidades.
Eu proponho o termo Bioética como forma de enfatizar os dois componentes mais importantes para se atingir uma nova sabedoria, que é tão desesperadamente necessária: conhecimento biológico e valores humanos. (POTTER,1971)

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Na sequência, a conferência ministrada pelo Conselheiro do CFM-Conselho Federal de Medicina, Dr. Lúcio Flávio, nos remeteu à contemporaneidade e trouxe à tona a discussão: A medicina na intersecção entre tecnologia e humanidades. Estamos vivendo uma era de incertezas na classe médica. Com a revolução da informação e da tecnologia “vestível”,as possibilidades do cuidado com a saúde são as mais variadas possíveis. Já vivemos em um mundo onde as pessoas já vem à consulta com a hipótese diagnóstica pronta, pois antes de procurarem um médico, já questionaram ao “Dr. Google” acerca de seus sintomas. Sabemos que adequar-se à tecnologia é inevitável, e fundamental na era em que vivemos, a ressalva se faz presente quando essa adequação se torna fator preditivo para o abandono dos aspectos humanos. E isso é preconizado em nosso Código de Ética, em seus princípios fundamentais:
“Princípio II
O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.”

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A última palestra da sexta-feira, teve como tema: O coração de um verdadeiro médico. Ministrada pelo Dr. Hélio Angotti Neto,criador do SEFAM-Seminário de Filosofia Aplicado à Medicina, diretor Editorial da revista internacional em Humanidades Médicas Mirabilia Medicinae, sediada no Institut d’Estudis Medievals da Universidade Autônoma de Barcelona, médico (UFES), residência em Oftalmologia e doutorado em Ciências Médicas (USP); Visiting Scholar em 2016 da Global Bioethics Education Initiative do Center for Bioethics and Human Dignity, no qual apresentou essa palestra. Durante esse tempo nos perguntamos: como formar um bom médico? Como educar para ser uma boa pessoa, e consequentemente um bom médico? Não seria pretensioso ousar educar para o certo, para a virtude? A virtude seria uma qualidade moral particular. Uma disposição estável de praticar o bem; revela mais do que uma simples característica ou uma aptidão para uma determinada ação boa, trata-se de uma verdadeira inclinação. São todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Diante desse fato, aprendemos que ser médico vai além de um registro frente ao conselho que rege a profissão, o verdsdeiro coração de um médico abarca virtudes ( confiabilidade, compaixão,prudência, justiça, fortitude,temperança, integridade e dignidade).

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No último dia do evento, sábado pela manhã, tivemos como primeira conferência: A importância da comunicação médica- como dar más notícias? Ministrada pelo Dr. Heitor Spagnol dos Santos, Geriatra(IAMSPE, 2016) e Especialista em Cuidados Paliativos( Instituto Paliar,SP- 2015).
“Mesmo para o médico mais experiente, nem sempre é fácil ser o porta voz de fatos que vão mudar invariável e devastadoramente a vida de um indivíduo. Então, o que fazer nesta hora? Devemos contar ao paciente, ou apenas aos familiares? Devemos falar de uma vez, ou começar com uma série de frases introdutórias, no estilo “o gato subiu no telhado”? Devemos amenizar e dizer que “tudo vai ficar bem” ou dizer toda a verdade? Diante do tema exposto, fica a certeza de que o objetivo maior nesse contato entre o paciente e o médico é: permitir que paciente viva seu tempo restante com dignidade. Possibilitando ao mesmo uma comunicação que contemple: O que o paciente quer saber? Quanto o paciente quer saber?, sendo essas informações , compartilhadas de maneira sensível e direta.

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Para a segunda conferência deste dia, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo, doutor Carlos Magno Pretti Dalapícola, Clínico Geral e Médico do Trabalho, discutiu e traçou um panorama acerca das escolas médicas no Brasil: quantidade x qualidade. Se remontarmos ao médico medieval, veremos que desde aquela época, o mesmo era submetido à um regime de aprovação ao final de sua formação: “Em Ispahan, onde passara imediatamente de refugiado político a hakim-bashi, Médico-Chefe, encontrou uma cidade com um grande número de médicos, e muitos homens se transformando em curandeiros por meio de uma simples declaração. Poucos desses futuros médicos tinham as bases de conhecimento ou o gênio intelectual que marcaram sua entrada na profissão, e compreendeu que devia descobrir um meio de determinar quem era qualificado para praticar a medicina e quem não era. Há mais de um século realizavam-se exames para médicos em Bagdá e Ibn Sina convenceu a comunidade médica de que em Ispahan o exame seletivo na madrassa devia criar ou rejeitar médicos, sendo ele o principal examinador.” ( O Físico- Noah Gordon) Na contemporaneidade não é diferente, com 268 escolas médicas no Brasil e mais de 24.000 vagas, só perdemos no ranking para a Índia, a qual possui 381 cursos, porém uma população 6 vezes maor do que o Brasil. Em Junho de 2015, o Conselho Federal de Medicina(CFM) e a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), uniram-se em prol do desenvolvimento e implementação do Sistema de Acreditação dos Cursos de Medicina no Brasil (Saeme). Inspirado no processo oficial de acreditação de cursos médicos nos Estados Unidos e Canadá, o Saeme nasceu da demanda de maior participação das escolas médicas, das entidades profissionais e da sociedade no desenvolvimento, de uma visão crítica sobre a qualidade da formação médica no Brasil, e da necessidade de apresentar à sociedade um processo de acreditação transparente e independente.

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Para finalizar o evento, levantamos questões fundamentais que assolam a nossa carreira: falta de respeito para com o médico( somos obrigados a viver em defesa, com luvas de boxe, ao invés de luvas cirúrgicas), entraves como: falta de recursos, gestão ineficiente, corrupção na saúde, judicialização da saúde, lei do ato médico…“O início do século XX, foi marcado no Brasil pela crescente participação do Estado na coisa publica , sobretudo na área da saúde. Este fato pode ser observado tanto na lei criada em 1915 para regulamentar a formação profissional, quanto naquelas voltadas para a organização do primeira sistema de saúde brasileiro, materializado com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), em 1920.”Mas porque ir tão longe na história? Essa viagem se faz necessária para compreendermos a importância da discussão do tema a seguir. É uma tema contemporâneo e ao mesmo tempo histórico. Uma parcela dessa crise, remonta à fatos que no passado, repercutem hoje. Ao lado do presidente da AEMED-ES- Associação dos Estudantes de Medicina, unidade Espírito Santo, Tiago Fonseca Nunes ,levantamos questionamentos e debatemos acerca do papel do médico e dos estudantes de Medicina no contexto político do Brasil. Não há mais tempo de cruzar os braços e levar nas costas o título de “bode expiatório” do governo. É necessário ocupar espaços, mudar o perfil de médico que foi incutido na população. Precisamos de agentes partícipes, que exerçam uma política sem politicagem que busque recuperar o tempo perdido.

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