O cavalo como agente terapêutico

No mês de Maio, a LIAHM-Liga Acadêmica de Humanidades Médicas, promoveu vários encontros científicos dentro de sua linha de estudos. Um desses encontros nos levou por um passeio na história e a relação entre o homem e o cavalo, onde o animal passa de presa à componente terapêutico na reabilitação de pacientes.

Nesse passeio teórico-prático tivemos a ajuda dos fisioterapeutas  Ivan Loss e Franciely Marim , os quais relatam a seguir um pouco da Equoterapia como método de reabilitação.

 

“Quando falamos sobre a relação do homem cavalo, muitos se limitam a explorar eventos pontuais. Na verdade essa relação é muito mais antiga e interligada do que pensamos. Um fato que podemos observar: o homem é colocado como autor individual de sua história e, por meio do uso de suas faculdades intelectuais, estabeleceu conquistas no seu processo de evolução de forma individualizada. Contudo existem ganhos inegáveis obtidos pelas comunidades humanas através do uso dos cavalos.

Interligados historicamente, o homem inicialmente utilizou o cavalo como fonte de alimentação, evoluindo para a realização de várias tarefas que envolveriam a agricultura, o transporte, a guerra, o esporte e contemporaneamente a reabilitação.

            O cavalo sempre despertou um fascínio no homem. Já na Grécia antiga, temos a aparição de centauro, uma fantástica criatura mitológica, meio homem e meio cavalo que sob o ponto de vista filosófico, atestava a junção da inteligência que o homem possuía com a imponência física dos cavalos.

No período medieval, observamos as comunidades nômades que passavam boa parte de seu tempo montada no lombo do mesmo, e que, posteriormente também viriam a integrar as rotinas das comunidades organizadas e fixas, com a finalidade de realização de tarefas diárias, principalmente, na produção agrícola.

Prosseguindo pela Idade Média, vemos a incorporação do animal ao mundo esportivo e das guerras, onde citamos as cruzadas, período sombrio de nossa história em que o cavalo foi utilizado em disputas ideológicas.

Na Idade Moderna, durante o período da colonização, grandes nações surgiram no dorso do cavalo. Exemplo é, que a colonização da América Central teve como alicerce central o cavalo. Podemos ser, um pouquinho mais generosos, e dizer que a maior potência mundial, o, Estados Unidos da América, nasceu em cima de um cavalo.

            A história do emprego do cavalo como agente terapêutico tem suas origens paralelamente à história das civilizações, não sendo uma descoberta recente.

           Hipócrates (460-370 a.C) já aconselhava a equitação no tratamento da insônia, Asclepíades (124-40 a.C.), recomendava o uso do cavalo a pacientes epilépticos e paralíticos. Galeno (130-199 d.C.) usou a equitação como forma de fazer com que seus pacientes se decidissem com mais rapidez, mas somente após a Primeira Guerra Mundial, que a equoterapia teve sua consolidação, como meio reabilitador e terapêutico nos soldados com sequelas do pós-guerra.

O interesse da classe médica pela equitação como um método terapêutico, surgiu após uma jovem dinamarquesa (Liz Hartel), acometida de poliomielite, ter sido premiada com medalha de prata em adestramento nas Olimpíadas de 1952. O público só percebeu que a jovem era deficiente física após a mesma descer do cavalo e subir ao pódio portando duas bengalas canadenses.

 

Tal prática desperta tanto interesse pelo fato do cavalo produzir e transmitir ao cavaleiro uma série de movimentos sequenciados e simultâneos, que tem como resultante um movimento tridimensional, que pode descrito como conjunto de movimentos em diferentes planos, que ocorre ao mesmo tempo. Destrinchando o mesmo temos no eixo vertical temos um movimento para cima e para baixo; no plano frontal, movimento para direita e para esquerda; seguido plano sagital do cavalo um movimento para frente e para trás. Este movimento é completado com pequena torção da quadril do cavaleiro, que é provocada pelas inflexões laterais do dorso do animal.

É de suma importância salientar que somente pelo alinhamento sincrônico dos centros de gravidade, onde homem/cavalo estão imóveis um em relação ao outro, porém moveis em relação ao solo, se consegue acionar o sistema nervoso, alcançando os objetivos neuromotores tais como: melhora do equilíbrio, ajuste tônico, alinhamento corporal, coordenação motora e força muscular.

 O andar do homem e do cavalo assemelham-se em 95%. Na marcha o ser humano se locomove utilizando suas pernas alternadamente, deslocando o centro de gravidade durante a marcha para três planos de movimento. Por tamanha semelhança e sincronia, o cavaleiro montado também é deslocado de forma passiva, ritmada e cadenciada para os três planos. Sendo a assim quem estiver montado é levado a perda, e a busca, do equilíbrio.

O cavalo realiza ciclos de movimentos análogos ao ciclo do homem durante sua andadura ao passo. Este subdivide-se em quatro fases: Levantar, que corresponde ao membro que se ergue, desligando-se do solo; Suster, momento da oscilação; Pôr, quando retorna o contato com o solo, e por fim, apoiar, quando se firma. Podem ser resumidas em apoio e suspensão.

Portanto, o paralelismo entre o andar humano e do cavalo se evidencia pelo movimento tridimensional observado em ambos. Essa semelhança favorece ao praticante a construção da percepção desse movimento, que em inúmeros casos, nunca teve a possibilidade de vivenciar.       

Com a criação da ANDE-BRASIL, em 1989, foi dado um grande impulso à implantação de centros de equoterapia no país contando atualmente com centenas de entidades filiadas em todo território nacional.

A palavra equoterapia foi criada pela ANDE-BRASIL (Associação Nacional de Equoterapia) em 1989, para caracterizar todas as práticas que utilizem o cavalo com técnicas de equitação e atividades equestres, objetivando a reabilitação e/ou educação de pessoas com deficiência ou com necessidades especiais. A palavra foi registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, com o Certificado de Registro de Marca n.º 819392529, de 26 de julho de 1999.

 

A equoterapia foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina do Brasil como método terapêutico em 1997, e a partir de 2000, encontros, simpósios, congressos nacionais e internacionais sobre equoterapia começaram a ser realizados no país, resultando em publicações de artigos que trazem experiências de pesquisadores e profissionais desta área.

Em face ao avanço da equoterapia no Brasil, ações têm sido realizadas para que sua prática seja normatizada, de forma a estabelecer a sua padronização e a sua natureza científica, garantindo que os praticantes sejam atendidos de forma profissional, ética e benéfica às necessidades que apresentem. Tramita no Senado Federal o projeto de lei que regula a prática da equoterapia, como todo método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas da saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial da pessoa com deficiência. “

 

Ivan Loss é Fisioterapeuta no Centro de Equoterapia na APAE- Colatina e Presidente da Associação Capixaba de Equoterapia.

Franciely Marim é Fisioterapeuta no Centro de Equoterapia na APAE- Colatina e Membro do Conselho Profissional da Asociação Capixaba de Equoterapia.

 

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